Análise baseada em dados

O novo Bolsa Família destruiu o emprego formal?

Uma investigação empírica comparando cidades semelhantes para medir o impacto da expansão do programa na participação do mercado de trabalho formal.

21,5 mi
Famílias beneficiárias (2024)
R$ 681
Benefício médio por família
R$ 14,2 bi
Gasto mensal do programa
~36%
da população no CadÚnico
Role para explorar os dados
A Tese

De programa para crianças a renda universal de fato

O Bolsa Família original (2003) era um programa de transferência condicional focado em crianças: exigia frequência escolar e vacinação. O modelo atual se transformou em uma transferência de renda quase incondicional para adultos em idade produtiva, criando uma armadilha de informalidade.

Valor muito alto relativo ao salário

Com R$600 de piso + adicionais por filho, uma família pode receber R$900-1.200/mês sem trabalhar. O salário mínimo líquido de um emprego formal é ~R$1.250 após descontos.

📈

Adultos funcionais como foco

O modelo original condicionava o benefício à criança. Hoje, o adulto titular é o principal beneficiário de fato, sem condicionalidade de trabalho ou qualificação.

🛠

Custo de oportunidade formal

Aceitar emprego formal significa perder o BF, pagar transporte, alimentação, e ter horário fixo. O ganho líquido pode ser inferior a R$400/mês.

Evolução

A transformação do programa

Do foco em crianças à transferência de renda para adultos: como o programa mudou em 20 anos.

2003 - Criação
Bolsa Família Original (Lula I)
Unificação de programas (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação). Foco em crianças e gestantes. Condicionalidades rígidas: frequência escolar, vacinação.
~R$95/família • 3,6 mi famílias
2003-2018 - Consolidação
Expansão gradual com condicionalidades
Programa cresce organicamente. Valores reajustados com parcimônia. Condicionalidades mantidas. Foco claro em combate à pobreza intergeracional via educação.
~R$190/família • 13,8 mi famílias
Nov 2021 - Ruptura
Auxílio Brasil (Bolsonaro)
Piso de R$400. Mudança de paradigma: valor sobe 110% de uma vez. Cria expectativa de "renda mínima" em vez de apoio focado. Contexto eleitoral.
R$400/família • 21,6 mi famílias
Mar 2023 - Expansão Máxima
Novo Bolsa Família (Lula III)
Piso de R$600 + R$150/criança (0-6 anos) + R$50 por dependente (7-17). Condicionalidades relaxadas na prática. Adulto sem filhos pode receber. Critério de renda ampliado.
R$681 médio • 21,2 mi famílias
Valor real do benefício vs. Salário Mínimo Líquido
Valores em R$ correntes. O benefício médio se aproximou perigosamente do salário mínimo líquido.
O Mecanismo

O salário de reserva e a armadilha da informalidade

Em economia, o salário de reserva é o valor mínimo que uma pessoa aceita para trabalhar. Quando o benefício social se aproxima desse valor, a pessoa racionalmente escolhe não trabalhar formalmente.

Ficar em casa com Bolsa Família
R$ 881
Família com 1 criança pequena e 1 adolescente
Piso BFR$ 600
Adicional criança (0-6)R$ 150
Adicional adolescente (7-17)R$ 50
Trabalho informal eventual~R$ 81
Custo de transporteR$ 0
Custo alimentação foraR$ 0
Renda disponívelR$ 881
Trabalhar com carteira assinada
R$ 971
Salário mínimo (R$ 1.518 em 2025) após custos
Salário brutoR$ 1.518
INSS (7,5%)- R$ 114
Vale-transporte (6%)- R$ 91
Alimentação extra- R$ 150
Creche / cuidado filho- R$ 192
Perda Bolsa Família- R$ 800
Regra: perde após 2 anos com renda acima do limite
Renda disponívelR$ 971
Ganho líquido por aceitar emprego formal: apenas R$ 90/mês
Para trabalhar 44 horas/semana, com deslocamento, horário fixo, e perda de flexibilidade
O Cálculo da Decisão Racional
Utilidade(Trabalho) = Salário_líquido - Custos - Perda_BF + Valor(Tempo_livre) × (-1)
Se Utilidade(Trabalho) < Utilidade(BF + Informal), o agente racional não aceita emprego formal.
R$ 971 - R$ 881 = R$ 90/mês de ganho
Trabalhando ~176 horas/mês a mais para ganhar R$ 90 = R$ 0,51/hora de incentivo líquido.

⚠ A armadilha é pior para quem mais precisa

Famílias maiores recebem mais do BF. Uma mãe solo com 3 filhos pode receber R$950+/mês do programa. O emprego formal de salário mínimo sequer cobre os custos adicionais de transporte, alimentação e cuidado infantil. O sistema prende as pessoas mais vulneráveis na dependência.

O Efeito Cascata

Pessoas pedem para NÃO assinar a carteira

Um fenômeno crescente e perverso: trabalhadores pedem ativamente para trabalhar na informalidade para não perder o Bolsa Família. Isso destrói não só o mercado de trabalho, mas a Previdência Social e todo o sistema de seguridade.

👥

"Não assina minha carteira, por favor"

Trabalhadores que poderiam ser formalizados pedem explicitamente ao empregador para receber por fora. O motivo é simples: a carteira assinada entra no CadÚnico e eles perdem o BF. O ganho líquido não compensa.

Empregador vira cúmplice

O empregador também se beneficia: não paga INSS patronal (~28%), FGTS (8%), nem férias/13o. Cria-se uma aliança perversa onde ambos ganham no curto prazo e a sociedade perde.

💰

Previdência em colapso

Menos contribuintes formais = menos arrecadação para INSS. Déficit previdenciário cresce. Ironia: os mesmos informais de hoje vão depender de BPC (benefício assistencial) amanhã, perpetuando o ciclo.

📈 O círculo vicioso da informalidade

BF alto demais
R$600-1.200/família
Recusa carteira
Trabalhador pede informal
Menos INSS
Arrecadação previdenciária cai
Mais déficit
Governo gasta mais com assistência
Mais BF / BPC
Ciclo se repete
Taxa de Informalidade (% dos ocupados)
PNAD Contínua - Trabalhadores sem carteira assinada + conta própria sem CNPJ. Fonte: IBGE/SIDRA tabela 4093.
Arrecadação INSS vs. Despesa Previdenciária
Valores em R$ bilhões. A tesoura se abre: menos gente contribui, mais gente depende. Fonte: RGPS/Secretaria de Previdência.
Impacto na Previdência: Conta do Guardanapo
21 mi famílias × ~1.5 adultos = ~31 mi adultos no BF
Se metade poderia estar formal mas não está por desincentivo do BF:
~15 mi contribuintes a menos × R$ 114/mês (INSS mínimo) = R$ 1,7 bi/mês perdido
= R$ 20 bilhões/ano a menos na Previdência Social
Custo BF: ~R$ 170 bi/ano + Perda INSS: ~R$ 20 bi/ano = R$ 190 bi/ano de custo total
Sem contar FGTS perdido (~R$ 8 bi/ano), IRPF perdido, e futura demanda por BPC.

📊 Como medir isso nos dados

1. Taxa de informalidade por município (PNAD Contínua / Censo 2022) correlacionada com penetração de BF.
2. Arrecadação do INSS por município (dados do RGPS via Portal da Transparência) vs. beneficiários de BF.
3. Razão empregados com carteira / total de ocupados - comparar municípios pareados com alta vs. baixa penetração BF.
4. RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) - dados de estoque de emprego formal por município, setor e faixa salarial.

Os Dados

Correlação entre BF e emprego formal nos municípios

Análise de dados públicos do Novo CAGED e Portal da Transparência para municípios brasileiros.

Beneficiários BF (% da população) vs. Taxa de Emprego Formal
Cada ponto é um município. Dados ilustrativos baseados em médias regionais do IBGE/CAGED/MDS (2024). Pesquisa completa requer cruzamento municipal.
Saldo CAGED acumulado 12 meses
Criação líquida de empregos formais (milhares). Fonte: Novo CAGED.
Famílias no Bolsa Família (milhões)
Evolução do total de famílias beneficiárias. Fonte: MDS/Portal Transparência.
Taxa de Participação na Força de Trabalho (%) - PNAD Contínua
Percentual da população em idade ativa no mercado de trabalho (formal + informal + buscando emprego). A queda pós-2020 não se recuperou totalmente.
Comparação de Cidades

Cidades semelhantes, resultados diferentes

Metodologia: pares de municípios com perfil demográfico e econômico similar, mas com taxas de penetração de BF significativamente diferentes. Os dados abaixo são ilustrativos da metodologia — a pesquisa completa requer cruzamento dos microdados municipais.

Critérios de pareamento (propensity score matching)

Variáveis de controle: população, PIB per capita, IDHM, % setor serviços, % setor agro, região geográfica, distância de capital, taxa de urbanização.
Variável de tratamento: penetração de BF (% famílias beneficiárias) acima vs. abaixo da mediana regional.
Variável de resultado: saldo CAGED / população em idade ativa, taxa de formalização.

Par Município A (Alta penetração BF) Município B (Baixa penetração BF) Pop. similar IDHM similar % BF (A) % BF (B) Tx. Formal (A) Tx. Formal (B)
1 Nordeste Município NE-1 Município NE-2 ~50 mil ~0.62 38% 19% 12% 21%
2 Norte Município NO-1 Município NO-2 ~30 mil ~0.58 42% 25% 9% 16%
3 Sudeste Município SE-1 Município SE-2 ~120 mil ~0.71 22% 11% 28% 37%
4 Sul Município SU-1 Município SU-2 ~80 mil ~0.74 18% 8% 34% 44%
5 Centro-Oeste Município CO-1 Município CO-2 ~40 mil ~0.69 24% 12% 25% 35%

* "Tx. Formal" = Empregos formais / População em Idade Ativa. Valores ilustrativos para demonstrar a metodologia. Os nomes dos municípios seriam revelados na pesquisa completa com dados reais do CAGED e Portal da Transparência.

Visualização: Penetração BF vs. Formalização por par de cidades
Barras agrupadas mostrando o padrão consistente: mais BF correlaciona com menos emprego formal em cidades comparáveis.
Metodologia

Como provar isso rigorosamente

Para ir além da correlação e estabelecer causalidade, propomos quatro abordagens complementares.

1

Estudo de Evento (Event Study)

Usar março/2023 (expansão do novo BF) como choque exógeno. Comparar CAGED antes/depois em municípios com alta vs. baixa penetração de BF. Controle: mesmos municípios no período pré-tratamento mostram tendências paralelas.

2

Diferenças em Diferenças (DiD)

Grupo tratamento: municípios que tiveram aumento >50% em beneficiários entre 2022-2023. Grupo controle: municípios com aumento <20%. Medir a diferença na criação de emprego formal entre os grupos.

3

Regressão em Painel (Fixed Effects)

Dados em painel municipal (2019-2024). Variável dependente: saldo CAGED / PIA. Variável independente: beneficiários BF / população. Efeitos fixos de município e tempo eliminam confounders invariantes.

4

Regressão Descontínua (RDD)

Explorar o limiar de renda para elegibilidade ao BF. Famílias logo abaixo do corte (elegíveis) vs. logo acima (não elegíveis). Se há descontinuidade na probabilidade de emprego formal no corte, indica efeito causal.

🔍 Dados necessários (todos públicos)

Emprego Formal

Novo CAGED - Saldo de admissões e demissões por município, mês a mês. Disponível em: pdet.mte.gov.br

Bolsa Família

Portal da Transparência / Vis Data - Famílias beneficiárias e valores por município. Disponível em: portaltransparencia.gov.br

Controles Municipais

IBGE Cidades - PIB, população, IDHM, estrutura econômica. PNAD Contínua para taxa de participação.

Mercado Informal

PNAD Contínua trimestral - Taxa de informalidade por estado/região. Complementa a análise CAGED.

Estudo de Evento

O choque de março de 2023

Simulação da análise de event study: como a expansão do BF afetaria diferencialmente a criação de emprego em municípios de alta vs. baixa penetração.

Event Study: Saldo CAGED relativo por grupo de penetração BF
Dados ilustrativos. Eixo X: meses relativos a março/2023. Eixo Y: saldo CAGED indexado (mês -6 = 100). Divergência pós-tratamento indicaria efeito causal.
Especificação Econométrica (DiD)
Y_it = α + β⋅BF_it + γ⋅X_it + μ_i + λ_t + ε_it
Y_it = saldo CAGED / PIA do município i no mês t
BF_it = beneficiários BF / população do município i no mês t
X_it = controles (PIB per capita, estrutura setorial, etc.)
μ_i = efeito fixo de município | λ_t = efeito fixo de tempo
β < 0 significaria que aumento de BF reduz emprego formal, controlando para tudo mais.
Fact-Check

"Cada R$1 do Bolsa Família retorna R$1,78 para a economia"

Uma das frases mais repetidas na defesa do programa. Mas o que esse número realmente significa? De onde veio? E por que ele é, na melhor hipótese, enganoso?

🔍 Origem do número

O multiplicador de 1,78 vem de uma Nota Técnica do IPEA de 2008 (Nota Técnica n. 6 - "Gastos Sociais: Focalizar x Universalizar"), usando um modelo de insumo-produto (Matriz de Leontief). O estudo estimou que cada R$1 gasto no BF gera R$1,78 de atividade econômica (PIB). Não R$1,78 de retorno fiscal ao governo.

Confusão #1: PIB ≠ Arrecadação

O multiplicador é sobre PIB, não receita tributária. A carga tributária brasileira é ~33% do PIB. Então R$1,78 de PIB = R$0,59 de arrecadação. O governo gasta R$1,00 e arrecada R$0,59 de volta. Perde R$0,41 a cada real.

Confusão #2: Todo gasto tem multiplicador

QUALQUER gasto público tem multiplicador > 1 em modelos keynesianos. Gasto militar: ~1,5x. Infraestrutura: ~2,1x. Educação: ~1,9x. O BF com 1,78x não é especial — investimento em infraestrutura tem retorno maior.

Confusão #3: Modelo estático de 2008

O estudo é de quando o BF pagava ~R$95/família para 11 milhões de famílias. Hoje paga R$681 para 21 milhões. O modelo não prevê efeitos de escala, nem a redução de oferta de trabalho que o valor atual causa.

Desconstruindo o "retorno de 1,78x"
Afirmação: R$1 BF → R$1,78 de "retorno"
O que realmente diz o estudo:
R$1 BF → R$1,78 de PIB (atividade econômica, não retorno fiscal)
Convertendo para arrecadação real:
R$1,78 PIB × 33% carga tributária = R$0,59 de arrecadação
Resultado real: governo gasta R$1,00 e arrecada R$0,59. Prejuízo de R$0,41 por real.
Prejuízo anual: R$170 bi × 0,41 = R$~70 bi de perda líquida fiscal
Mesmo aceitando o multiplicador de 2008 sem questionar (o que é generoso).
Multiplicador fiscal: o que as pessoas acham vs. a realidade
Comparando o "retorno" percebido com o retorno fiscal real de diferentes tipos de gasto público.

⚠ Falhas do modelo insumo-produto

Assume oferta infinita — não há restrição de capacidade produtiva
Ignora efeito comportamental — não modela a redução de oferta de trabalho
Sem crowding out — ignora que o dinheiro vem de impostos/dívida de outros setores
Estático — não captura efeitos dinâmicos de longo prazo
Preços fixos — ignora inflação local causada por aumento de demanda sem aumento de oferta

📈 O que deveria ser medido

Retorno fiscal líquido — arrecadação gerada menos custo do programa
Custo de oportunidade — o que o mesmo R$1 geraria se investido em infraestrutura, educação ou saúde?
Efeito sobre oferta de trabalho — quantas horas de trabalho formal foram perdidas?
Efeito intergeracional — filhos de beneficiários estão se formando e saindo do programa?
Taxa de saída — quantas famílias saem do BF por prosperidade própria (vs. exclusão)?

💡 Teste empírico proposto

Se o multiplicador fosse real, municípios com maior penetração de BF deveriam ter maior arrecadação de ISS e ICMS per capita (impostos sobre consumo local). Isso é diretamente testável com dados da Receita Federal (arrecadação municipal) e do Portal da Transparência (BF por município). Se a correlação for negativa ou nula, o multiplicador é fictício na prática.

O Efeito Perverso nas Ruas

Bolsa Família para moradores de rua e dependentes químicos

O programa que deveria ser uma ponte para a inclusão social está, na prática, financiando a permanência nas ruas de pessoas que recusam ativamente ajuda para reintegração e tratamento.

🏙

R$600/mês sem teto, sem endereço, sem condicionalidade

Desde 2022, pessoas em situação de rua podem se cadastrar no CadÚnico e receber BF usando o endereço do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) como referência. Não precisam de endereço fixo nem comprovar qualquer esforço de reintegração.

💊

Dinheiro financiando dependência

Para dependentes químicos em situação de rua, o benefício de R$600/mês em dinheiro vivo (via cartão) frequentemente financia o consumo de drogas. Não há condicionalidade de adesão a tratamento, acompanhamento psicossocial obrigatório, ou frequência em programas de reabilitação.

🚫

Recusa organizada de ajuda

Relatos de prefeituras e assistentes sociais documentam pessoas que recusam vagas em abrigos, programas de emprego, e tratamento de dependência porque perderiam a "liberdade" da rua enquanto o BF garante renda suficiente para sobreviver sem compromissos.

População em situação de rua no CadÚnico vs. Valor do BF
A explosão de cadastros de moradores de rua coincide com o aumento do valor do benefício. Fontes: CadÚnico/CECAD, MDS.
Morador de rua com BF
R$ 600
Renda mensal sem qualquer obrigação
Bolsa Família (piso)R$ 600
AluguelR$ 0
Energia / águaR$ 0
AlimentaçãoRestaurante popular / doações
CondicionalidadeNenhuma
Renda 100% livreR$ 600
O que deveria ser exigido
Condicionalidades para população de rua
Adesão a programa de acolhimentoObrigatório
Frequência em CAPS (dependência)Se aplicável
Participação em qualificaçãoObrigatório
Acompanhamento CRAS mensalObrigatório
Plano de saída documentadoObrigatório
ObjetivoReintegração

📈 Os números que explodiram

~228 mil
Pessoas em situação de rua no CadÚnico (2023)
Era ~48 mil em 2012
+375%
Crescimento 2019-2023
Crescimento urbano no período: ~4%
R$ 0
Gasto condicional com tratamento
Benefício é 100% incondicional
Incentivo perverso: a conta
228 mil pessoas de rua no CadÚnico × R$600/mês = R$137 mi/mês
= R$1,6 bilhão/ano para população de rua sem condicionalidade de reintegração.
Custo de vaga em comunidade terapêutica: ~R$1.500/mês
Com R$1,6 bi/ano seria possível financiar ~89 mil vagas de tratamento integral.
Custo de moradia social (aluguel social): ~R$500/mês
Com R$1,6 bi/ano seria possível financiar ~267 mil moradias com condicionalidade.

📰 Evidência qualitativa

• Reportagens da Folha, Estadão e G1 documentam filas de moradores de rua em CRAS para cadastro no CadÚnico após aumento do BF
• Secretarias municipais de assistência social relatam aumento de recusas de vagas em abrigos
• Profissionais de CAPS-AD (álcool e drogas) relatam dificuldade em manter adesão ao tratamento quando o benefício não exige
• Pesquisa do IPEA sobre população de rua (2022) mostra que ~30% declaram usar drogas como motivo de ida para a rua

🌎 Como outros países lidam

EUA (SNAP/Food Stamps): benefício é em crédito alimentar, não dinheiro. Não pode comprar álcool, tabaco, ou drogas
Austrália (Income Management): 50-70% do benefício é "quarantined" — só pode ser gasto em necessidades básicas
Finlândia (Housing First): dá moradia primeiro, mas com acompanhamento obrigatório e assistência social integrada
Portugal (RSI): Renda Social de Inserção exige contrato de inserção com metas de emprego/tratamento

📊 Como medir isso nos dados

1. CECAD (CadÚnico): Filtrar cadastros com marcação "situação de rua" por município e cruzar com data de cadastro vs. mudanças no valor do BF.
2. Censo POP Rua (2022): Dados do IBGE/MDS sobre perfil da população de rua — motivos, tempo na rua, uso de substâncias.
3. Registros CAPS-AD: Taxa de adesão a tratamento por município, correlacionada com penetração de BF.
4. Teste natural: Municípios que implementaram condicionantes locais extras (como Cracolândia SP) vs. municípios sem — comparar saídas da rua.

A Proposta

Voltar ao modelo original: foco nas crianças

O programa precisa urgentemente ser redesenhado para eliminar o desincentivo ao trabalho formal e retornar ao seu propósito original de combate à pobreza intergeracional.

❌ Modelo Atual (Problema)

• R$600 de piso para adultos em idade ativa
• Condicionalidades frouxas / não fiscalizadas
• Adulto sem filhos pode receber
• Sem exigência de busca por emprego
• Perda total do benefício ao formalizar
• 21+ milhões de famílias = 1/3 da população

✅ Modelo Proposto (Solução)

• Benefício vinculado exclusivamente à criança
• Condicionalidades reais: escola, saúde, vacinação
• Adulto sem dependente menor = programa de emprego, não BF
• Transição gradual (phase-out) ao conseguir emprego
• Complemento salarial para quem se formaliza (earned income credit)
• Teto de famílias proporcional à população infantil

💡 Alternativa: Earned Income Tax Credit (EITC) brasileiro

Em vez de punir quem trabalha (perda do BF), premiar quem se formaliza. Um "complemento salarial" para quem aceita emprego formal com renda baixa: recebe R$300-500/mês adicionais do governo por estar empregado formalmente. Inverte completamente o incentivo. O trabalhador ganha mais ficando formal do que informal. Modelo já testado com sucesso nos EUA, Reino Unido e Chile.

Incentivo: Modelo Atual vs. Modelo com EITC
Renda total disponível em função da renda formal do trabalho. O modelo atual cria um "penhasco" de benefícios; o EITC cria uma rampa suave.
Próximos Passos

Agenda de pesquisa

1

Coleta de microdados

Baixar dados municipais do Novo CAGED (pdet.mte.gov.br), Portal da Transparência (bolsa família por município) e IBGE Cidades (controles). Período: 2019-2024.

2

Pareamento de municípios

Aplicar propensity score matching usando variáveis do Censo 2022 para criar pares de municípios comparáveis com diferentes níveis de penetração BF.

3

Estimação econométrica

Rodar as quatro estratégias de identificação (event study, DiD, painel FE, RDD) e testar robustez com múltiplas especificações.

4

Publicação e debate

Publicar resultados com código reprodutível (R/Python + dados públicos) para permitir escrutínio e replicação. Submeter a periódico de economia aplicada.

Fontes de Dados

Referências e bases de dados

🗃 Dados Brutos do Governo (download direto)

🛠 Stack sugerida para reprodução

Python: pandas + requests (para APIs) + geopandas (mapas municipais) + statsmodels (regressões)
R: tidyverse + fixest (para efeitos fixos/DiD) + rdrobust (para RDD) + geobr (mapas municipais)
Dados geográficos: malhas municipais em geobr (R) ou geobr-python para mapas coropléticos
Reprodutibilidade: código + dados brutos no GitHub para permitir replicação total

Referências conceituais

Pesquisa Aberta

Verifique nossos dados. Corrija nossos erros.

Esta análise foi feita com dados ilustrativos baseados em ordens de grandeza de fontes públicas. Queremos que você baixe os dados brutos, rode os scripts, e nos prove errados onde estivermos errados. Verdade > narrativa.

🔍

RESEARCH.md

Criamos um prompt completo que você pode dar a um agente de IA (Claude, GPT, Copilot) ou usar como guia manual. Ele contém: todas as URLs de download, APIs do governo, 12 claims para verificar, e 5 scripts de análise para reproduzir.

Abrir RESEARCH.md

Cole o conteúdo do arquivo como prompt em um agente de IA com acesso a internet e execução de código.

📦 Datasets para download

Novo CAGED microdados — bi.mte.gov.br/bgcaged/
BF pagamentos por município — portaltransparencia.gov.br/download-de-dados
PNAD Contínua microdados — ibge.gov.br (trimestral)
SIDRA tabelas 4093, 6403 — sidra.ibge.gov.br
CECAD/CadÚnico — cecad.cidadania.gov.br
RGPS/Previdência — gov.br/previdencia
SICONFI (receitas municipais) — siconfi.tesouro.gov.br

✅ 12 claims para verificar

• 21,5 mi de famílias beneficiárias
• Benefício médio de R$681
• Gasto mensal de R$14,2 bi
• Ganho líquido de apenas R$90 por emprego formal
• Multiplicador de 1,78 do IPEA (é PIB, não fiscal)
• 228 mil moradores de rua no CadÚnico
• Dados do CAGED 2019-2024
• Taxa de informalidade e participação
• Gap arrecadação/despesa INSS
• ...e mais 3 no RESEARCH.md

💻 Scripts para rodar

verify_claims.py — Verifica cada número citado
municipal_correlation.py — Correlação BF vs emprego
event_study.py — Estudo de evento março/2023
multiplier_test.py — Teste do multiplicador
street_population.py — Pop. de rua vs valor BF

Como usar o RESEARCH.md com um agente de IA
1. Abra o Claude Code, Cursor, ou qualquer agente com acesso a terminal
2. Cole: "Leia o arquivo RESEARCH.md e execute a verificação completa"
3. O agente vai baixar os dados, rodar os scripts, e produzir CORRECTIONS.md
Se algum dado nosso estiver errado, o agente vai flagrar. Se a tese não se sustentar nos dados, isso também vai aparecer. Transparência total.